terça-feira, 27 de outubro de 2009

VIDAS DESPERCEBIDAS LXVIII - Denilson


Combinaram às 15h na porta da lanchonete do antigo bairro, que era o meio do caminho para os dois.
Que surpresa ele não teve ao vê-la tão parecida do que era quando se conheceram na juventude. Estava mais velha é verdade, mas ainda conservava a beleza daqueles tempos.
Tantos anos sem vê-la fizeram-no fantasiar coisas a seu espeito, principalmente por lembrar-se do tempo em que foram namorados, naquela época em que tudo lhes parecia possível, até mesmo lutar contra uma Ditadura Militar.
Ficou todo cheio de si quando ela respondeu ao seu telefonema e combinaram de ver-se.
Poder abraçá-la, cheirá-la outra vez, era uma vitória grande. Por outro lado, ela só falava de si todo o tempo, de onde estivera, o que fizera, com quem andara, o que comprara, quem deixara. Foram tantos eus em tão poucos minutos de encontro que chegou mesmo a arrepender-se de tê-la convidado.
Chegou a conclusão que algumas pessoas são muito melhores em nossas lembranças.



VIDAS DESPERCEBIDAS LXVII - Nádia


Levantou-se abruptamente, correu para pegar a caneta e o papel no criado mudo e pensou antes de começar a fazer seus apontamentos.
Sonhara que estava deitada de costas no chão de uma casa estranha e via que tinha vinte membros, pernas e braços, agitando-se no ar. Não tinha parado pra contar, mas no sonho ela sabia. Ora, vinte é Peru, embora esteja na centena do Cachorro também.
Mas, se ela bem se lembrava do sonho, o chão era de lama, palha e serragem, estava sujo igual a um chiqueiro, então só podia ser Porco. Só que ela estava usando um laço no pescoço, amarelo e preto, laço no pescoço é Borboleta. Pensando assim, sonhar com borboleta pode ser morte também, Deus que nos livre.
No sonho davam seis hora da manhã no relógio da parede, e esta é a hora do galo cantar, então só podia ser Galo mesmo.
Se bem que seis é Cabra, bicho teimoso e caracteriza o seu signo no horóscopo chinês. Porém, se ela estava no chão, devia ser Cobra; mas aí não bate, porque se fosse Cobra ela teria de estar com a barriga pra baixo, e ao contrário estava deitada de costas e não de bruços.
Seis também poderia ser Águia, ou seja, seria Cabra cercada na centena da Águia. Estaria errada?
Daí lembrou que ao se dar conta no sonho que estava no chão e com uma porção de pernas e braços se agitando, ela ficou com vergonha. Como iria explicar isso no trabalho?
Bicho que sente vergonha é Avestruz, que esconde a cabeça no buraco do chão. Se ela multiplicar os números do Avestruz, 01-02-03-04, dá vinte e quatro, e vinte e quatro é Veado, que come pasto, no caso do sonho a palha no chão.
Então seria Avestruz cercado no Veado? Ficou confusa.
O melhor mesmo seria jogar na Megasena, que estava acumulada em 20 milhões.


sexta-feira, 23 de outubro de 2009

VIDAS DESPERCEBIDAS LXVI - Samara


Foi fazendo faxina que descobriu que atrás do armário do quartinho de empregadas tinha um saco plástico cheio de fotografias velhas.
Trouxe o saco para a mesa da cozinha, espalhando o conteúdo em cima da toalha.
Numa das fotos viu ali os seus pais abraçados meio sem jeito pela pressa de posar para a foto e atrás o letreiro de uma loja qualquer. Os penteados, as roupas, as caras, tudo era datado, inclusive o que parecia ser o amor deles naquele então.
O bigode do seu pai parecia ser postiço, bem como desenhadas as sobrancelhas de sua mãe, o que lhe trazia certa estranheza, já que os dois hoje eram tão diferentes daqueles dois desajustados da foto.
Pela data do verso ela ainda não tinha nascido, e mesmo que estivessem sorrindo não pareciam felizes na presença um do outro, nem mesmo naquele abraço falso de fotografia, fazendo-a pensar que até hoje não se amassem, apenas se tolerassem.
Como um sapato que mesmo que nos aperte os dedos o suportamos por não termos outro.


VIDAS DESPERCEBIDAS LXV - Ducarmo e Pedro Paulo


Ainda que seus corpos já não respondessem como antes aqueles esforços, não demonstravam a fadiga de quem passara a última hora transpirando, arfando e flexionando músculos já quase adormecidos.
Olhavam um para o outro, com as bochechas rosada, os olhos vermelhos, pescoço e têmporas empapadas de suor, desejando repetir todo aquele trajeto outra vez. Aqueles caminhos íngremes para suas idades.
Pernas bambas, respiração arquejante e as veias do pescoço latejando, deram-se as mãos e riram cúmplices um da fraqueza do outro. Mas estavam orgulhosos de si, de toda aquela coreografia ousada, o ritmo cadenciado do corpo dos dois, se observando pelo espelho. Era como se  fosse o coração do outro batendo e não o seu próprio que escutavam em seus ouvidos, tão grande a intimidade.
Sentiam-se jovens outra vez entre aquelas quatro paredes.
Concluíram que precisavam de uma boa ducha e quem sabe tentariam de novo, não hoje, não amanhã, mas num futuro próximo, já que aquelas bicicletas ergométricas não sairiam dali.


sexta-feira, 18 de setembro de 2009

VIDAS DESPERCEBIDAS LXIV - Cassiano


Sua estupefação era tamanha que não sabia nem o que dizer, muito menos pra quem dizer, diante daquilo.
Andando na rua, em meio ao emaranhado de cartazes, propagandas, backlights, pixações, grafites, trepadeiras, arame farpado, reboco descascando, lambe-lambes, tábuas mal pregadas, alambrados, sacos de lixo, propagandas política e cartazes de salvação pela Igreja, ele se depara com uma flor de verdade (de verdade!), nascendo de dentro de um tijolo quebrado de um muro qualquer.
Ficou tão impressionado que durante muito tempo só conseguiu pensar naquilo.
Mesmo sem saber exatamente porque.


segunda-feira, 11 de maio de 2009

VIDAS DESPERCEBIDAS LXIII - Evanice


O chão da rua tremulava lá fora e ela, com as crianças pelas mãos, se instalou debaixo do ventilador de teto da lanchonete colorida da Praça da Bandeira.
As fez sentar nos banquinhos e lhe brotou no rosto, mais acabado do que deveria, um sorriso de graça por ver os pezinhos deles balançando, como se estivessem na borda de uma piscina.
O calor carioca era tanto que chegara a esquentar-lhe a bolsinha de moedas, que sentia leve como um passarinho na sua mão.
Encostou a barriga no balcão e começou a flexionar sua aritmética, enquanto olhava o mostrador com os preços e os produtos. Jogou os centavos de um lado para o outro até conseguir num resultado satisfatório dentro de todas as possibilidades disponíveis.
Colocou as moedas mornas na mão do atendente e levou o lanche até as crianças. Um joelho para cada e um copo de refresco de caju e outro de maracujá. Afinal, não é porque eram irmãos que teriam os mesmos gostos, sabia disso.
Ficou ali observando os dois se deliciarem enquanto amansava sua própria fome com a satisfação deles.


sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

VIDAS DESPERCEBIDAS LXII - Stephanie


O andar vacilante não era de desespero, era por causa do salto alto nas pedras portuguesas da calçada.
E as mãos tremento não eram de nervoso, era porque tinha feito esforço a tarde toda na academia.
O suor frio era por causa do calor que fazia, e os olhos lacrimejantes era por causa das lentes novas.
A respiração ofegante era por causa da asma que voltava, o olho roxo era da maquiagem que escorria, o cabelo desgrenhado era a pressa, os dentes bambos da frente era o tratamento ortodôntico.
Eles não brigaram de novo, ele só está passando por uma fase ruim.
Sua mãe entenderia.


quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

VIDAS DESPERCEBIDAS LXI - Ricardo


Fez as contas e viu que se pagar tudo ainda ia faltar pra faculdade.
De vez em quando pensava que ter saído da casa dos pais não tinha sido uma boa idéia, principalmente quando tinha que vender o almoço pra poder pagar a janta.
Mas, por outro lado, ficar ouvindo os remungos do pai, as lamentações da mãe sobre sua saúde, as brigas constantes da irmã com o marido, que vivem no andar de cima da casa dos seus pais, e as constantes incursões de suas sobrinhas pela casa a dentro, não é nada animador.
No final, se viu forçado a sair, porque ou era isso ou ter que agüentar todo este pesadelo, diariamente.
Só que lá no fundo, quando o cinto aperta, ele se imagina comendo aquele ensopadinho de batata com músculo, aquele feijãozinho temperado na hora, e todas aquelas coisas gostosas que só a mãe dele sabe fazer, e a dor aumenta, e a solidão, e o triste que é ficar às próprias custas.
Um dia ele vai entender que deu o passo na direção certa, mas enquanto ainda sentir a sombra da proteção familiar sobre si, estará sempre se arrependendo, pensando duas vezes.


terça-feira, 24 de junho de 2008

VIDAS DESPERCEBIDAS LX - Marcus


Assim que o relógio marcou quinze para as dez ele deixou o local do encontro com aquela sensação horrorosa de frustração e fracasso. No fundo achou que desta vez ia dar certo, que tudo funcionaria.
Durante o tempo de espera é normal que nós pensemos todas as possíveis adversidades que impediriam a pessoa aguardada chegar, mas ele já havia passado deste ponto e não parava de pensar que não era mais interessante pra ninguém e que definitivamente esta não seria a última a tratá-lo assim.
No ônibus, a caminho de casa, puxou a cordinha muito antes do seu ponto, porque queria tomar o ar fresco da noite, tirar de dentro do peito aquele calor que incomoda.


sexta-feira, 18 de abril de 2008

VIDAS DESPERCEBIDAS LIX - Dalvara


Ele ficou para dormir na sua casa porque já não havia condução.
Ela deixou sua cama para ele e lhe emprestou uma camiseta, para que não amassasse a que ele usaria no dia seguinte no trabalho.
Enquanto ele tirava a camisa, com toda aquela naturalidade, ela entrou no quarto e em breves instantes o observou de uma maneira que não tinha observado antes. Suas costas, o seu pescoço, a maneira como se movimentava.
Achou que ali se dera conta de que em seu coração ele era mais do que seu amigo.